quinta-feira, 5 de abril de 2018

Mudança


Este blog  mudou de sítio. Os textos que aqui publiquei ao longo dos últimos anos vão para o meu site.

Todos os meus textos, pessoais e profissionais, estarão aí reunidos.

Espero, sinceramente, que continuem a acompanhar-me neste novo endereço web.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma Agenda Política para a Inovação Social




             "Uma mentira dá a volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir."
Winston Churchill 


Ao longo das últimas semanas o Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Poiares Maduro, tem feito, publicamente, várias intervenções sobre o programa Portugal Inovação Social em que esta iniciativa é apresentada como um dos maiores programas da Europa para a promoção da inovação social e, até, um modelo a ser seguido por outros países. Ora, todos sabemos que estão à porta eleições e que, o mais certo, é o Senhor Ministro estar já em campanha eleitoral, mas a verdade não é essa e não podemos deixar de lhe apontar as fragilidades, quer do discurso, quer do próprio programa.

A verdade é que, sem prejuízo da bondade da Equipa de Missão que tem a seu cargo a gestão do Portugal Inovação Social , acerca deste programa ainda sabemos muito pouco. Decorridos mais de seis meses sobre a sua criação ainda não abriram qualquer concurso ou, sequer, publicaram qualquer regulamento ou documentação relevante que permita ao setor da Economia Social e aos actores do mercado de investimento social, prepararem-se e posicionarem-se para aceder aos fundos que aí estarão disponíveis. De facto, o que hoje sabemos sobre as 4 áreas em que se desenvolve este programa, não é mais do que aquilo que ficamos a saber quando, em finais de 2014, foi publicada a Resolução do Conselho de Ministros, que o criou. 

Nesta matéria, como em muitas outras, infelizmente, o tempo passou e, de concreto, não temos, ainda, nada. É importante que a Equipa de Missão que gere o programa faça publicar os regulamentos e informação concreta sobre cada uma das 4 áreas em que o programa se desenvolve.

Mas, talvez ainda mais importante do que esta questão da dificuldade no arranque do programa, é estar a criar-se a ilusão de que, com esta iniciativa, todos os nossos problemas sociais encontrarão respostas e que Portugal se colocará na vanguarda da "inovação social". Ora, nada mais falso. Já por várias vezes referi, e não me canso de repetir, que este programa é importante mas que, só por si, fará muito pouco pela inovação social e pela criação do mercado de investimento social. Mais, se não for acompanhado de uma agenda política para a inovação social que contemple várias iniciativas, em vários níveis de intervenção - governo, empresas, instituições da economia social, reguladores, financeiros/bancos - a sua execução corre mesmo o risco de se tornar impossível. É que a inovação social, tal como qualquer outra inovação, requer que se criem as condições adequadas ao seu desenvolvimento e, essas condições, são dadas, em primeira linha, pela existência de uma agenda para a inovação social que seja coerente, com indicação de medidas concretas e um calendário para a sua implementação. Ou seja, com medidas de política dirigidas aos vários atores envolvidos e comprometidos com a inovação social. 

Para a criação deste “ecossistema de inovação social”, importa que sejam desenvolvidas medidas de política em três níveis ou áreas de intervenção, a saber: (i) Instituições da Economia Social (IPSS, Misericórdias, Mutualidades, etc.) e empreendedores sociais; (ii) mercado de investimento social; (iii) impacto social e regulação.   

As medidas dirigidas às instituições da Economia Social e aos empreendedores sociais dizem respeito, desde logo, à criação de condições legais favoráveis à inovação social. A adopção de legislação sobre empresas sociais e negócios sociais, mas, também, a adequação da legislação da IPSS's a uma nova cultura de sustentabilidade, inovação e qualidade na prestação dos serviços. Criação de mecanismos e capacitação para que as instituições sociais possam adoptar este novo paradigma na prestação do serviço social, focado nos resultados, avaliando o seu sucesso pelos impactos sociais gerados. Apoiar e estimular a criação de incubadoras de inovação social em vários pontos do país e facilitar o seu trabalho em rede. Promover a aproximação entre o conhecimento, produzido em universidades e centros de investigação e as instituições e empreendedores sociais, tornando possível a implementação de inovações sociais e de novas tecnologias sociais. 

No âmbito do mercado de investimento social há muitas coisas por fazer, a mais urgente é mesmo a necessidade de um enquadramento legal para as plataformas de financiamento colaborativo, que já atuam em Portugal. É preciso legislar sobre crowdfunding e crowdlending já que é através destas novas plataformas que a esmagadora maioria dos projetos de inovação social se financiam. Mas, também, é importante definir um programa de medidas de incentivo ao investimento social, quer por via fiscal (sob a forma de créditos fiscais), quer pela adopção de outras medidas ativas de estimulo ao investimento social dirigidas a especiais classes de investidores (ex: fundos de investimento, fundações, etc.). Quanto aos Títulos de Impacto Social importa criar legislação de enquadramento tendo em conta as questões que se levantam em termos de contratação pública e a necessidade de garantir a transparência e o pleno acesso de todos os interessados neste tipo de contratos. Os TIS podem ser um importante instrumento para o desenvolvimento e implementação de inovações sociais em vários setores e a vários níveis, nacional, regional e local, mas precisam de estar claramente regulados. 

A coordenação, das várias iniciativas e dos vários atores, à escala nacional, deverá estar a cargo de uma agência pública para a inovação social, com a missão de promover a inovação social e o investimento social, assumindo-se a inovação social como uma  das componentes centrais das políticas públicas sociais. Caberá a este organismo, entre outras, as seguintes tarefas: (i) promover a adopção de metodologias de avaliação e medição de impacto social; (ii) divulgar informação sobre os custos para o erário público das várias tipologias de problemas sociais (ex.: custo de uma criança obesa para o serviço nacional de saúde), promovendo a cultura de investimento na prevenção social, assim gerando poupança; (iii) desenvolver as medidas necessárias à adopção, por parte do setor público, da avaliação de impacto social na contratualização de serviços de solidariedade social e sociais; (iv) dar suporte técnico à criação de incubadoras de inovação social e suas redes; (v) promover a criação de redes de especialistas em investimento social; (vi) apoiar os organismos da administração central e das autarquias locais na concepção, desenvolvimento e implementação dos seus programas de inovação social; (vii) reunir informação e divulgá-la sobre as melhores práticas em inovação social; (viii) coordenar todos os processos relativos a Títulos de Impacto Social.

Já muito se falou sobre a necessidade de se encontrarem novas formas de financiamento para dar resposta a um número crescente de necessidades sociais e de novas necessidades sociais. Estes novos problemas sociais necessitam de respostas também elas novas e, é por isso, que a adopção de medidas de apoio e estimulo à inovação social são tão importantes e urgentes. Mas não se pense que estes novos instrumentos são a solução para os nossos problemas, eles são, apenas, mais um contributo para a solução. 

Ao Estado, nesta como em quase todas as áreas, pede-se que seja um "empreendedor social" inteligente e que não abdique da sua função social, daí que as medidas de política para a inovação social tenham sempre que se enquadrar no quadro mais amplo das políticas públicas para a inovação e das políticas públicas para o emprego e solidariedade. 


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Social Innovation World Forum'15

Aqui estou na Fundação Calouste Gulbenkian a assistir ao Fórum Mundial de Investimento Social 2015 (Social Innovation World Forum'15). Quando recebi a informação sobre este evento fiquei com a impressão que seria promovido por instituições portuguesas e estrangeiras, afinal, os seus promotores, são instituições portuguesas: Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal Inovação Social e Laboratório de Investimento Social.  A estas instituições o meu obrigado e os meus parabéns pela iniciativa.

Vendo o programa, parece não restarem dúvidas de que se trata de um evento de divulgação do conceito e apresentação de casos e boas práticas, aos actores do ecossistema de inovação social português.  Sendo assim, porquê fazer todos os materiais de divulgação e promoção deste evento em inglês?

Num momento em que tanto se debate a importância da língua portuguesa, não seria mais socialmente inovador assumir o português como a língua de trabalho do evento? Obviamente,  sem prejuízo da tradução para os convidados estrangeiros.

Esta é a minha prineira reflexão, mas, logo que possível,  vou escrever aqui sobre o discurso do Ministro Poiares Maduro.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

terça-feira, 5 de maio de 2015

7. Quais os Instrumentos do Investimento de Impacto?


Os investidores sociais dispõem de um leque de opções de investimento cujo objectivo é o de gerar impacto social e ambiental. Na verdade, sempre que um investidor proporciona a uma empresa, organização de solidariedade social ou projeto comunitário, meios financeiros com a intenção de gerar um impacto social positivo e um possível retorno financeiro, estamos perante investimento de impacto.

Neste sentido, as oportunidades de investimento de impacto encontram-se numa série de activos, incluindo: obrigações de renda fixa, títulos de tesouraria e equivalentes, títulos de impacto social públicos e privados, fundos de investimento alternativo, fundos de empreendedorismo social, microfinanças e financiamento público (títulos de dívida pública). Estas oportunidades existem quer em mercados desenvolvidos, quer em mercados emergentes.

É possível fazer investimento de impacto numa ampla gama de setores, a título de exemplo temos os investimentos em habitação a custos controlados, acesso a bens e serviços comunitários, emprego e formação, inclusão financeira, saúde e assistência social, transportes e comunicações, utilities (água, energia, tratamento de lixos) e meio ambiente, entre muitos outros.

Vejamos, agora, alguns dos instrumentos ou meios pelos quais é possível fazer investimento de impacto. 

1. Os títulos de impacto social (social impact bounds): são veículos especiais na medida em que estão relacionados com contratos celebrados pelo governo com organizações prestadoras de serviços sociais e com investidores, em que o governo se compromete a um pagamento em função dos resultados sociais específicos que se projeta obter, junto de uma população previamente definida. Os títulos de impacto social (TIS) estão pensados para estimular e ajudar o desenvolvimento de novas abordagens, mais eficazes, no âmbito da prestação de serviços sociais públicos, através de um modelo de colaboração inovador entre governo, organizações prestadoras de serviços sociais e investidores. Neste modelo de parceria, os investidores assumem o risco, uma vez que só serão remunerados pelo seu investimento na medida em que forem alcançadas as incidências sociais positivas previstas. Por seu lado, os prestadores dos serviços sociais comprometem-se a alcançar essas incidências sociais positivas, ou seja, o TIS está pensado para a a obtenção de resultados sociais (ex.: melhoria da saúde das crianças até aos 14 anos de idade de uma determinada região) e não nos meios que é necessários para tal (ex.: número de médicos ou número de consultas realizadas). Oa pagamentos aos prestadores dos serviços são, assim, realizados em função dos resultados alcançados e não em função do trabalho realizado. Teremos assim, por parte do governo, interesse em captar investidores para o financiamento de medidas de prevenção precoce dos graves e complexos problemas sociais, permitindo, com estas medidas, obter poupanças futuras. Já os prestadores destes serviços, devem ser flexíveis e focados nos resultados.  

Os bancos de investimento só agora acordaram para o potencial impacto da oferta de TIS nas suas carteiras de investimento. O Goldman Sachs investiu recentemente cerca de 10 milhões de dólares num TIS para ajudar a financiar um programa na cidade de Nova York. A iniciativa, que é uma parceria entre a cidade de Nova York, Bloomberg Philanthropies e MDRC, um provedor de serviços sociais, vai financiar um programa para adolescentes, que tem em vista a reduzir a taxa de reincidência de adolescentes detidos na penitenciária de Rikers Island.

2. A dívida pública é um instrumento privilegiado em muitas estratégias de investimento até porque se trata de um investimento mais seguro, quando em comparação com outras classes de activos. São várias as formas que os investidores têm para aceder a dívida pública.

As subscrições de Certificados de Aforro podem ser efectuadas em qualquer Estação de Correios. Quanto à Obrigações do Tesouro (OT) e Bilhetes do Tesouro (BT) e tendo em consideração que a transação de pequenos lotes é realizada no segmento de retalho do mercado de capitais (i.e. no mercado gerido pela Euronext Lisbon), a sua aquisição direta, ou indireta por via de fundos de investimento, pode ser efectuada através de instituições financeiras especializadas.

3. As obrigações são instrumentos financeiros que representam um empréstimo contraído junto dos investidores por parte das entidades que as emitem, que tanto podem ser empresas, como Estados ou outras entidades públicas e privadas. Ao adquirir uma obrigação o investidor torna-se credor dessa entidade. Assim, o investidor pode adquirir obrigações de uma empresa ou organização de cariz social cujo impacto da sua actividade seja aquele que o investidor pretende obter. Normalmente estas obrigações são investimentos sob a forma de um dividendo fixo, rendimento ou juros, sobre o dinheiro que é emprestado.

4. O investimento de impacto também pode ser feito através da aquisição de ações de empresas de capital aberto. Neste caso o investidor adquire ações de empresas cujo impacto social e, ou ambiental é parte do seu modelo de negócio. Em Portugal, temos como exemplo destas empresas a EDP Renováveis, com sede em Madrid, que tem como objectivo fornecer energias limpas através da construção de centrais de energia eólica, solar e outras. No ramo da prestação de cuidados de saúde, também, se encontram oportunidades de investimento de impacto social e ambiental.

5. Uma alternativa à aquisição acções ou de obrigações, de forma directa, é o investimento em fundos de impacto social e ambiental, geridos por uma entidade financeira. Aqui se incluem os vários fundos do mercado de investimento socialmente responsável. O mercado de investimento socialmente responsável não se desenvolveu em Portugal, ao contrário do que aconteceu em outros países, daí que haja instituições financeiras que actuando em Portugal e em outros mercados oferecem este tipo de fundos nesses países e não em Portugal. Um exemplo é o do Banco Santander que para o mercado espanhol e brasileiro tem este tipo de produtos financeiros, não os comercializando no mercado portugês.

Um exemplo de um fundo de investimento alternativo com preocupações ambientais é o Fundo de Energias Renováveis da CGD, contudo estes fundos estão reservados a investidores institucionais, desde logo porque implicam alto nível de risco.

Acreditamos que há no mercado financeiro português uma oportunidade de crescimento para estes fundos de investimento socialmente responsáveis e que a adopção de medidas de política capazes de estimular os processos de inovação social, constituirão um estimulo ao nascimento deste tipo de produtos financeiros.

5. O investimento em capital de risco destinado ao financiamento do sector social é, também, uma oportunidade a considerar. A Lei n.º18/2015 vem criar os fundos de empreendedorismo social, muito embora sejam fundos especialmente vocacionados para investidores institucionais, a lei abre aos investidores particulares a possibilidade de participarem destes fundos. 

6. O Crowdfunding ou investimento colaborativo está a crescer em todo o mundo e há quem preconize que estas formas de financiamento online têm o potencial de revolucionar a forma como se procura e se oferece financiamento, sem a intermediação dos bancos tradicionais. Nestas plataformas os investidores podem financiar todo o tipo de  projectos e negócios com pequenas quantias, o objectivo de quem procura o financiamento é aceder a um elevado número de potenciais financiadores, cada um investindo uma pequena quantia.

Em Portugal já há plataformas de financiamento colaborativo, a PPL Crowdfunding Portugal, a Massivemov Crowdfunding e até um banco tradicional oferece uma plataforma de crowdfunding para projectos sociais, o Novo Banco

7. Por outro lado, ainda no âmbito desta modalidade de financiamento colaborativo, temos o crowdlending. Em Portugal já temos uma plataforma de crowdlending, a RAIZE. Este é, também, uma plataforma online que permite aos pequenos investidores emprestar dinheiro diretamente às pequenas empresas, que, no mercado português, são aquelas que geram mais postos de trabalho. Estamos perante empréstimos, titulados por contratos de mútuo celebrados directamente entre os investidores e as empresas. Esta modalidade de empréstimos permite contornar os bancos, colocando os investidores e as empresas em contacto direto.

De referir que o Partido Socialista apresentou na Assembleia da República uma proposta de Lei tendo em vista a regulamentação das várias formas de investimento colaborativo, mas a mesma ainda não foi apreciada e votada pelo plenário da AR. 

8. O Microcrédito é um termo amplo para descrever os serviços financeiros destinados a pessoa de baixos rendimentos e sem acesso aos serviços bancários típicos. Na base do microcrédito está a ideia de que as pessoas de baixos rendimentos são capazes de sair da pobreza, através da criação de pequenos negócios, desde que tenham acesso a serviços financeiros.

Tal como acontece em qualquer financiamento há risco associados ao microcrédito, daí que na UE exista um programa específico destinado a promover e apoiar o microcrédito nos países da UE. 

Em Portugal o Microcrédito é disponibilizado pelas instituições bancárias: CGD, Montepio  e Novo Banco. A Associação de Nacional de Direito ao Crédito é uma instituição sem fins lucrativos onde os candidatos ao microcrédito podem obter apoio e acompanhamento no desenvolvimento dos seus projetos de negócio. 

Medir o impacto social é difícil, mas é possível, através dos dados que são recolhidos pela ANDC avaliar o progresso em termos de saída da pobreza dos micro-empresários, bem como obter alguns indicadores de desempenho social, como sejam a diminuição nas prestações sociais de desemprego e rendimento mínimo.

Para além destas modalidades de investimento de impacto que, ainda que modestamente, podemos encontrar em Portugal, há outras formas que estão a ser desenvolvidas em outros países, com especial destaque para o Reino Unido, e que nos permitem concluir que estamos, efectivamente, perante a emergência de um mercado de investimento impacto social e ambiental. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sociedade Civil: Que Futuro?




Nos últimos 5 anos o World Economic Forum tem demonstrado um grande interesse em conhecer melhor as organizações da sociedade civil, as suas dinâmicas e o seu potencial de desenvolvimento como parceiros para a mudança e o desenvolvimento global. Em Davos, em 2013, foi mesmo apresentado o relatório The Future Role of Civil Society que procura responder a três questões essenciais:

  1. Qual o contexto em que operam as organizações da sociedade civil?
  2. Qual o contexto em que estas organizações vão estar a operar em 2030?
  3. Que novos modelos de relacionamento será necessário desenvolver entre as organizações da sociedade civil, empresas, governos e organizações internacionais nesse contexto?

O relatório é um documento que contou com a participação de muitas pessoas, incluindo destacados líderes da sociedade civil global. Em todos eles há a convicção de que o papel da sociedade civil é cada vez mais determinante, na procura de soluções inovadoras, para os graves problemas com que as pessoas se debatem, à escala local, nacional e global. 

Comecemos por repensar o conceito de "sociedade civil", já não estamos apenas, e só, perante instituições não governamentais sem fins lucrativos; hoje, a sociedade civil envolve um crescente e vibrante número de organizações, formais e informais, que estão a esbater as tradicionais fronteiras entre os sectores e a experimentar novas formas de organizações sociais, no online e não só. Apenas como exemplo, temos todo o fenómeno das empresas sociais.

As regras, também, estão a mudar e os actores da sociedade civil já demonstraram o seu valor como facilitadores diálogo social, bem como prestadores de serviços e defensores de causas. Enquanto instituições privadas estão a fazer a diferença no sentido da mudança social positiva, mantendo viva a crença de que existem alternativas ao alcance dos homens e mulheres que desejam um mundo melhor.

Seguindo as linhas de reflexão do relatório, conclui-se por uma alteração muito significativa no contexto em que a sociedade civil tem vindo a actuar. O mundo está em mudança acelerada e há novas realidades: o poder económico e geopolítico não é mais um exclusivo da Europa e dos EUA; as novas tecnologias estão a mudar significativamente os modelos de financiamento, deslocando-se para novas causas sociais; e a repressão política está a limitar a actuação da sociedade civil em muitos países. Estas circunstâncias colocam às organizações novos desafios, geram novas oportunidades e requerem uma rápida adaptação por parte dos actores mais tradicionais. 

Não obstante, a sociedade civil na actualidade é vibrante, diversa e ocupa um espaço crescente na procura de novas e inovadoras respostas aos desafios sociais e de promoção da ética e da transparência, tanto à escala local e nacional, como à global.

No futuro, que começa já hoje, os lideres da sociedade civil precisam de estar atentos ao significado de todas estas mudanças e à forma como elas moldarão a sua acção social e, em especial, à forma como afectarão as suas relações com empresas, governos e instituições internacionais. Num mundo incerto e turbulento os vários actores não podem mais trabalhar de forma isolada, a resposta aos novos desafios sociais tem de ser encontrada de forma mais eficiente e isso requer que se transcenda a tradicional divisão em setores. Isto significa que as organizações da sociedade civil têm que encontrar novas fontes de inspiração e de acção para que a sua adaptação tenha sucesso.  

Um dado parece certo, o poder e a influência da sociedade civil está em crescimento e deve ser usado para gerar confiança e facilitar a comunicação entre os três setores. Como salienta o relatório, as mudanças pelas quais as organizações da sociedade civil têm estado a passar sugerem que esta não poderá ser vista como "3º Setor" durante muito mais tempo. A sociedade civil é a cola que une as actividades pública e privada, agindo todas juntas de modo a fortalecer o "bem comum".  

Os líderes da sociedade civil têm a responsabilidade de prosseguirem a sua missão, com integridade, propósito e confiança. O mundo precisa destas organizações independentes que actuem como "fiscalizadores", guardiãs da ética e advogando pelas causas dos marginalizados e dos socialmente mais desfavorecidos. 

Por fim, a sociedade civil, em todas as suas novas formas, tem um importante papel na realização por parte de todos, incluindo ela própria, de elevados padrões de ética e de transparência.

Para mais informação sugiro a leitura do Relatório.  
   

segunda-feira, 20 de abril de 2015

6. Como Identificar Oportunidades de Investimento de Impacto?



Que o mercado de investimento de impacto a nível global está em crescimento e que há uma grande diversidade de oportunidades para investidores de impacto, é uma realidade, mas a verdade é que, em Portugal, o cenário não é assim tão animador.

O conceito de investimento de impacto, seja ele impacto social e,ou ambiental, tal como o conceito de empresa social, não fazem, ainda, parte do léxico do mercado de financiamento nacional. Não me parece que seja muito importante indagar sobre as causas deste desconhecimento, mas, a tal situação, não é, certamente, estranho, o facto de o investimento socialmente responsável (SRI), que desde há, pelo menos, duas décadas se desenvolveu um pouco por todo o mundo, não ter tido praticamente expressão em Portugal. Ou seja, as instituições financeiras portuguesas não têm oferecido aos investidores portugueses produtos de investimento socialmente responsável. Não há, assim, uma cultura de investimento socialmente responsável, isto sem prejuízo das inúmeras iniciativas no âmbito da responsabilidade social das empresas. 

Acresce que, frequentemente, o conceito de "investimento social" é confundido com o de filantropia, venha ela de empresas ou de fundações e com subsídios públicos. Ora, todas estas modalidades de financiamento são necessárias ao setor social, chamado a dar resposta a crescentes necessidades sociais, mas cada uma delas tem o seu próprio campo de aplicação, sendo, frequentemente, complementares entre si.

Contudo, não podemos dizer que não existam oportunidades de investimento de impacto em Portugal, elas existem, só que não são facilmente identificáveis. A falta de um conceito legal de empresa social  e a inexistência de um mercado de investimento social são as principais causas desta dificuldade. Contudo, há fortes razões para acreditar que esta situação está a mudar. 

Na verdade, do lado do sector social, há uma ampla gama de organizações cooperativas, mutualidades, instituições de solidariedade social e, até, empresas sociais (geram lucros e produzem impactos sociais positivos) que procuram financiamento para a realização dos seus projetos. Do lado destas instituições, é importante que se desenvolvam metodologias de medição do seu impacto social, de modo a que se perceba claramente quais as mudanças positivas significativas que estão a ocorrer junto dos seus beneficiários e da comunidade envolvente. Para estas organizações gerarem efectivo impacto social elas necessitam de, por um lado, atingir um número significo de pessoas e, por outro, operar uma melhoria significativa na sua qualidade de vida, respondendo às suas necessidades.

Ora, para a que o mercado de investimento social se desenvolva é necessário que estas organizações melhorem as suas capacidades organizacionais e de geração de impacto social, que sejam capazes de medir e avaliar esse impacto e que disponibilizem essa informação de forma fiável e clara ao mercado, em especial aos investidores.

Iniciativas como o Laboratório de Investimento Social , a Iniciativa Portugal Inovação Social e a crescente atenção ao movimento das BCorp, que já conta com duas empresas em Portugal e de que o IES-SBS é o representante em Portugal, prometem mudar rapidamente esta situação.   

Já quanto às empresas de impacto ambiental a situação é um pouco melhor e iniciativas como o Compromisso para o Crescimento Verde terão, a muito curto prazo, efeitos relevantes no que diz respeito à criação de um verdadeiro mercado de investimento verde (ecológico), com empresas vocacionadas para a geração de impactos ambientais positivos e a produzirem relatórios de sustentabilidade e de impacto, com informação relevante para investidores.

Por fim, não creio que iniciativas como a Social Stock Exchange, em que os membros são empresas cujo impacto social e, ou ambiental é demonstrado pelos Relatórios de Impacto realizados como condição de adesão, sejam replicáveis em Portugal, pelo menos nos tempos mais próximos, mas certamente que encontraremos as empresas e os projetos que, em Portugal, são adequados à captação destes investimentos.